quarta-feira, 11 de junho de 2008

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(Sô CHICO EMPURRA A CADEIRA DE RODAS COM UMA CERTA DIFICULDADE).

SÔ CHICO:-Fiquei Foi Sozim,sozim mesmo num fiquei.
Divaldo toma conta de mim.Todo dia ele vem,faz o que tem de fazer depois, vai cuidar das cosas dele.(PAUSA) As coisas vêm do nada.Sopra, e toma conta do corpo da gente.Pra viver só, agente que ter muito dinheiro,mode poder gastar com o que quiser.Gozar bem a vida.E ter desejos firmes feito pedra.Senão a solidão mata a gente de dor.Divaldo,ah! Divaldo...É como se ele fosse as pernas que me falta.Ainda consigo ver graças à Deus! Que os meus olhos não me faltem.É Divaldo quem faz tudo aqui pra mim.É..(PAUSA),hoje completa um ano! Um ano!!!
Depois que Mereciana morreu,a vida mudou.A casa morreu...Tuso aqui mudou.(PAUSA) Ela deu de ir lá pra capital visitar o irmão. Passar uns dia por lá mode esquecer as tristezas que não saía daqui.Por lá mesmo morreu atropela da por uma carreta desgovernada.Dizem que saiu não se sabe de onde.(PAUSA)
Agora tô aqui nesta cadeira de rodas.Divaldo me mandou fazer um chá bem quente,fiz e tomei.Depois me deitei por debaixo dos cobertores.--A gente soa,o difruço passa. --Disse ele--Não é que me esqueci,saí de debaixo dos cobertores e fiquei completamente intrevado.Não era pra mim pegar aragem.Peguei,aí fiquei todo torto.Agora tô começando a me sentir melhor.Já tá dando pra mexer com as pernas.(PAUSA)Assim é que entendo a menina caída no atoleiro sem ter com quem contar.
Mas,Divaldo!(PAUSA) Divaldo é alma boa! É tudo pra mim.Sem ele, sabe Deus eu o que seria desta minha vida de sofrimento.Tenho outros empregados,mas é o mesmo que não ter.Empregados só pensa neles,e no dinheiro da gente.Na hora que a gente paga inté faz cara boa.É como quem come mingau...Mas é só naquela hora..
Divaldo!(PAUSA) Divaldo é o filho que me falta.O pior mesmo é quando a noite vem (PAUSA),de noite ele não pode ficar.Tem os seus afazeres.Sem contar que agora é ele quem toma conta da fazenda toda.Faz aquilo que eu antes fazia,agora não posso fazer.(PAUSA) Reclamo não! Deus me livre de reclamar!
Vou levando a vida até a hora que Deus quiser.
(NISTO,SEM QUE SÕ CHICO NOTASSE,EDVALDO VAI ENTRADO COM UMA SELA NAS COSTAS).
EDVALDO:Falando de mim Sô Chico? Dá pra ouvir o senhor lá do alto.
SÔ CHICO:-É comigo mesmo que tô falando moço.Tava mesmo pensando nocê.Foi por isso que falei de voz alta.Achando que tô sozim...cê vê como é.A gente acaba latumiando pra gente mesmo.
EDVALDO:-- Hoje o dia começou bem!
SÔ CHICO:-É dia de notícia boa?
EDVALDO:-Num dia como este.Devia aparecer alguém pra gente chamuscar.Tô c'oa cabeça que é marimbondo só.
SÔ CHICO:-Cê tem cada idéia Divaldo! Né por causo do gado não,é? Ou é de mim que tomo o tempo seu?
EDVALDO:-O senhor acha que vou perder a minha paciência com uma coisa dessa natureza? Tem coisa pior do que se morder,morder e não achar a resposta?
SÔ CHICO:-Que diacho de conversa atravessada é essa moço?
EDVALDO:-Né de agora não.É que a coragem tá me faltando.
E tem gente que ainda diz que o coração do homem é enganoso.O coração da gente é uma bosta só.E gente pensa que o camarada é amigo. Que a sua amizade é um vaso que num quebra nunca.
É tudo engano,é conversa jogada na lata do lixo.Aí vem a dor.Aí vem a verdade arrancada do chão.É um golpe.A salmora amarga na boca da gente.Não existe nada pior do que a verdade.A verdade que liberta é a mesma que mata.É a mesma que enfurece e degola o sujeito.É arrancar o mal pela raiz.Senão a gente mofina e morre.E morto não alastra pra lugar nenhum.
SÔ CHICO:-Tem hora que ocê me deixa besta.De que verdade tá falando moço?
EDVALDO:-É de nós Sô Chico.É de nós! Da nosa verdade que a mentira tem engolido.
SÔ CHICO:-Agora é que não entendo nada mesmo.Endoidou é?Vai tomar o seu café,que ocê deve de tá é com fome.
EDVALDO:-A minha verdade,é diferencia da do senhor.Da minha tá minha jibera.Já tô no caminho da vitória.A hora já chegou.
SÔ CHICO:-Não podia mastigar melhor as palavras mode eu poder entender?.Essa conversa tá muito esquisita.
EDVALDO:-Bicho brabo a gente mata Sô Chico,que é pra não tocaiar a gente na calada da noite.Bicho que ataca pelas costas.
SÔ CHICO:-Essa conversa misturada é mode que ocê tá me escondendo o maldito?Cê achou ele.Tá escondendo de mim,é por isso né não? É essa a verdade? É isto que tá tentando me falar,mas tá com medo? Deixa de ser besta Divaldo,num dô conta de segurar a vaca pelo rabo.Mas, se ocê segurar ele pra mim, eu sangro o danado,e mato a minha sêde.
EDVALDO:- Quem me derá se fosse só isto.O senhor se alembra do ano passado?O que o senhor falou na venda do seu Pedro?Não tá se lembrando não?
SÔ CHICO:- É água de muito tempo.Não serve mais pra beber.E foi tudo de brincadeira.Uma daquelas coisas que a gente diz,depois quando dá por fé,já fez uma besteira.E não dá pra remediar.Se arrependimento matasse!!
EDVALDO:-Pro senhor pode ser.Pra mim é água de agora.Ainda dá pra beber.O ôme tem que sustentar o que diz até na hora da morte.
O senhor disse que eu gostava mesmo era de ôme.Que eu sou "FLOZÔ"Nas raparigas daqui eu nem mexo.Que o meu negócio é remexer por debaixo dos machos na palha.Que mué pra mim é só pra lavar e pra cozinhar.No resto eu num toco.
O senhor num achou que um dia Sô Pedro ia me contar?
Eu já tinha jurado na campa da minha finada mãe,que quando encontrasse o desgraçado,morto ele seria.Mas o senhor Sô Chico...(SÔ CHICO NÃO O DEIXA COMPLETAR A FRASE).
SÔ CHICO:-Era só de brincadeira moço.Aonde é que eu ia dizer uma coisa dessa de verdade.Justo docê.Se nós já fulubiamos juntos por esses matagais à fora. Cada um com uma mulher,as vezes inté com a mesma.Como é que eu ia dizer pra difamar ocê.Era numa brinacadeira tola.Numa roda de cachaçada.
EDVALDO:- De cachaçada!E a honra de um ôme não tem preço Seu Chico.O homem pode perde qualquer coisa.Mas,a honra e o caráter não.É tudo que o homem tem.Se o ôme perde isso é melhor deixar de viver.E amigo respeita o outro.Quer o bem do outro.Que amigo seria eu se andasse por ai falando das senvergonheces que o senhor fez a vida toda? isto é traição.Ainda mais se a coisa impetear a vida do coitado.

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